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Doença do Sono, e não apenas um Distúrbio do Sono

Janeiro 3, 2018

Um estudo internacional desenvolvido pelo Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes mostra que uma das doenças mais letais em África resulta de um distúrbio do ritmo circadiano, causado pela aceleração dos relógios biológicos que controlam diversas funções vitais, além do sono.


Quando se descobrir os genes do relógio afetados pela doença parasitária, os investigadores esperam que este projeto venha a ser útil no desenvolvimento de novas terapêuticas, alternativas aos tratamentos tóxicos que são por vezes fatais para os doentes.


“Este não é especificamente um distúrbio do sono” disse Luísa Figueiredo, diretora de laboratório no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes.


A doença do sono – conhecida como Tripanossomíase Humana Africana – é transmitida pela picada da mosca tsé-tsé e ameaça dezenas de milhões de pessoas nos países da África subsaariana. Após entrar no corpo, o parasita causa sintomas como: ciclos de sono invertidos, febre, fraqueza nos músculos e comichão. Eventualmente, o parasita acaba por invadir o sistema nervoso central e, dependendo do tipo de parasita, pode matar o seu hospedeiro num espaço de poucos meses a vários anos.


O estudo publicado na conceituada revista Nature Communications mostra que os sintomas da doença do sono podem ocorrer logo após a infeção, mesmo antes dos parasitas se acumularem em grande número no cérebro.


Os investigadores descobriram que o relógio biológico nos ratinhos infetados avança mais rapidamente, o que leva a uma inversão dos ciclos de sono e uma anormalidade hormonal e na temperatura corporal, semelhante ao que se observa em doentes com a doença do sono.


Contudo, nem todas os parasitas alteram o ritmo circadiano do seu hospedeiro: os relógios biológicos dos ratinhos infetados com o parasita responsável pela malária, por exemplo, não são alterados.


“O que ainda precisamos de descobrir é o que causa exatamente a mudança dos relógios durante a doença do sono. Será uma secreção do parasita, ou uma molécula produzida pelo hospedeiro em resposta à infeção? Conhecer a fonte irá ajudar-nos a ter um melhor entendimento da doença e potencialmente bloquear esses efeitos” disse Luísa Figueiredo, que recentemente ganhou uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação (ERC).


Este estudo resulta de uma recente colaboração entre Luísa Figueiredo e Joseph Takahashi da Universidade Southwestern, de Dallas, nos Estados Unidos. O estudo é uma continuação de outro trabalho publicado no ano passado, em que mostraram pela primeira vez a existência de relógios biológicos nos próprios parasitas. Nesse primeiro trabalho, os autores já tinham também mostrado que o ciclo circadiano torna o parasita da doença do sono – conhecido como Trypanosoma brucei – mais vulnerável à medicação durante a tarde.


Ambas as descobertas poderão ser benéficas para os pacientes, cujo corpo não consegue lidar com os efeitos colaterais do tratamento à base de arsénico usado para erradicar o parasita. Além do conhecimento sobre quais os genes que devem ser um alvo no desenvolvimento de novas terapias, os investigadores esperam que os resultados das suas descobertas permitam uma redução na duração e na dosagem dos tratamentos atuais, assim como saber qual o momento ideal para administra-los.


Entretanto, os esforços de controlo permitiram reduzir significativamente o número de casos na última década. No entanto, um número ainda desconhecido de pessoas continua a morrer anualmente da doença do sono, fazendo com que os investigadores continuem a procurar vacinas e tratamentos alternativos.


Este trabalho é suportado pelo HHMI e a Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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